Nossa casa foi isolada. Só me permitiram recuperar meus pertences mais tarde, acompanhada por um policial. Percorri os cômodos como se estivesse em um museu de uma vida arruinada. Ali está o sofá onde assistíamos a desenhos animados. Ali está a caneca do Evan, rachada. Ali está a jaqueta do Julian em um cabide, esquecida, como se tivesse acabado de ser usada.
Não peguei nada dele. Nada. Apenas nossas fotos, documentos, alguns brinquedos do meu filho e um cobertor velho com o qual eu o cobria quando bebê.
Mudamos para um pequeno apartamento alugado. Um cômodo, uma cozinha apertada, janelas com vista para o pátio. Não havia lembranças ali. E isso se tornou minha salvação.
No começo, Evan tinha medo de experimentar minha comida. Ele não dizia diretamente, mas eu percebia: ele cheirava a comida, olhava para mim, esperava que eu experimentasse primeiro. Ele sempre tomava o primeiro gole, a primeira mordida, sorria, e só então eu lhe servia.
Sua confiança foi retornando aos poucos. Não só a dele. A minha também.
Rotação
O julgamento se arrastou. Eu não compareci às audiências quando pude. Não queria ver Julian. O advogado disse que as provas eram irrefutáveis. Sua confissão se tornou uma mera formalidade.
Quando tudo acabou, não senti nenhum alívio.
Justiça é uma palavra fria. Ela não conforta à noite nem apaga as lembranças.
Um dia, Evan perguntou:
"Papai está longe agora?"
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