O silêncio no Letual era absoluto, denso, quase sufocante. As dezenas de milionários presentes, acostumados a reclamar se o vinho não estivesse na temperatura ideal, agora prendiam a respiração. Ninguém se mexia. No chão de mármore, o temido gerente permanecia de joelhos, esfregando o pescoço avermelhado, paralisado pela violência contida que emanava do terno azul-marinho de Javier Garza. Mas Javier não via mais ninguém. O mundo inteiro se resumia à mulher encurralada contra a parede, Valeria, sua Valeria, ou a mulher que ela fora um dia.
O cérebro de Javier, uma máquina treinada para devorar dados financeiros e detectar fraudes em segundos, agora trabalhava a uma velocidade vertiginosa, mas não com números de contas bancárias, e sim com meses, com datas, com memórias que ardiam em seu sangue. Exatamente nove meses desde aquela tarde chuvosa em que ela atirou as alianças sobre a bancada de granito da mansão dele, nove meses desde que o olhou com um desdém glacial, declarando que ele não era suficiente, que havia encontrado um homem de verdade, um empresário europeu que lhe daria o mundo que Javier lhe negava porque estava sempre trabalhando.
Meses desde que ela desapareceu sem deixar rastro, bloqueando suas ligações, sumindo da face da Terra. E agora, diante dele, uma barriga gritando a verdade anatômica impossível de esconder. Oito meses. O encontro de seus olhares foi devastador. Javier procurou nos olhos castanhos de Valeria a mulher fria e calculista que o abandonara, mas não a encontrou. Viu apenas um animal ferido e aterrorizado. Suas mãos finas e ásperas, antes sempre adornadas com unhas impecáveis e diamantes, agora estavam vermelhas, rachadas por produtos de limpeza, e agarravam sua barriga protuberante com uma força instintiva e protetora.
Oito meses. A voz de Javier não era um grito, mas um sussurro rouco, carregado de um veneno que paralisou Valeria. "Você está grávida de oito meses." Valeria engoliu em seco. O pânico apertou seu peito, cortando-lhe a respiração. Seus olhos se encheram de lágrimas que se recusavam a cair. Ela sabia que Javier era brilhante. Sabia que ele não levaria mais de cinco segundos para fazer as contas. Ele a havia deixado nove meses atrás, e o bebê tinha oito anos. A concepção acontecera precisamente nas semanas que antecederam o divórcio, semanas em que ainda dividiam a mesma cama.
"Javier, por favor", implorou ela em um sussurro, pressionando-se contra a parede de madeira, como se quisesse se fundir a ela. "Vá embora. Não faça escândalo aqui. Preciso ir." Javier soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor, um som que fez os garçons mais próximos estremecerem. “Não faça escândalo. Você some. Você arruína a minha vida, me diz que vai para Paris com algum magnata que vai te tratar como uma rainha.
E eu te encontro limpando a miséria em Monterrey, faminta e prestes a dar à luz.” Javier deu um passo à frente, diminuindo a distância. Sua figura imponente projetava a sombra de Valeria. O aroma de seu perfume caro, madeira e especiarias atingiu Valeria, desenterrando mil lembranças que a atingiram como uma marreta no estômago. “As contas não batem, Valeria.” Javier elevou a voz pela primeira vez, um rugido que ecoou pelo teto de pé-direito duplo do restaurante.
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