“Você deveria ter me contado”, disse ele.
"Eu tinha medo de que, se você soubesse que eu era médico, me pediria para curar a única coisa que não posso", disse ele, com a voz embargada. "Não posso te dar a visão, Zainab. Só posso te dar a minha vida."
A tensão no ar explodiu. Zainab o puxou para perto, enterrando o rosto na curva do seu pescoço. A cabana era pequena, as paredes finas, e o mundo exterior implacável, mas em meio à tempestade, eles não eram mais fantasmas.
Anos se passaram.
A história da "Menina Cega e do Mendigo" tornou-se uma lenda local, embora o final tenha mudado com o tempo. As pessoas notaram que a pequena cabana à beira do rio havia se transformado. Agora era uma casa de pedra, cercada por um jardim tão perfumado que podia ser explorado apenas pelo olfato.
Eles perceberam que o "mendigo" era, na verdade, um curandeiro cujas mãos podiam aliviar a febre melhor do que qualquer cirurgião caro da cidade. E notaram que a mulher cega caminhava com uma graça que lhe dava a impressão de ver coisas que os outros não conseguiam.
Numa tarde de outono, uma carruagem parou em frente à casa de pedra. Malik, envelhecido e definhado pela própria amargura, saiu. Sua sorte havia mudado; suas outras filhas casaram-se com homens que o exploraram até a última gota, e seus bens estavam em processo de inventário. Ele viera buscar o que havia descartado, na esperança de encontrar um lugar para repousar a cabeça.
Ele encontrou Zainab sentada no jardim, tecendo uma cesta com facilidade.
"Zainab", ele sussurrou, usando o nome dela pela primeira vez.
Ele parou, inclinando a cabeça na direção do som. Não se levantou. Não sorriu. Simplesmente escutou o som de sua respiração ofegante, o som de um homem que finalmente compreendera o valor daquilo que havia desperdiçado.
"O mendigo se foi", disse ele suavemente. "E a mulher cega está morta."
"O que você quer dizer?" perguntou Malik, com a voz trêmula.
“Agora somos diferentes”, disse ela, levantando-se. Não precisava de bengala. Caminhava entre as fileiras de lavanda e alecrim com uma confiança fluida. “Construímos um mundo com as sobras que vocês nos deram. Vocês não nos deram nada, e acabou sendo o solo mais fértil que poderíamos ter desejado.”
Yusha apareceu na porta, com os cabelos grisalhos nas têmporas e o olhar firme. Não parecia um mendigo, nem um médico em desgraça. Parecia um homem que estava em casa.
"Ele pode ficar no galpão", disse Zainab a Yusha, com a voz desprovida de malícia, repleta apenas de uma compaixão fria e clara. "Alimente-o. Dê-lhe um cobertor. Trate-o com a gentileza que ele nunca nos demonstrou."
Ela se virou em direção à casa e sua mão encontrou a de Yusha com precisão infalível.
Ao entrarem, deixando o velho debilitado no jardim, o sol começou a se pôr. Para qualquer outra pessoa, seria uma mudança rotineira na luminosidade. Mas para Zainab, era a sensação de uma brisa fresca em sua bochecha, o perfume das prímulas e o peso firme e sólido da mão que segurava a sua.
Ela não conseguia ver a luz, mas, pela primeira vez na vida, não estava no escuro.
A casa de pedra à beira do rio havia se tornado um santuário, um lugar onde o ar cheirava a lavanda e o murmúrio suave do riacho da montanha fornecia uma pulsação constante e rítmica. Mas para Yusha, a paz era uma frágil escultura de vidro. Ela sabia que segredos dessa magnitude — um médico falecido ressuscitado como curandeiro da aldeia — não permaneceriam enterrados para sempre.
A mudança começou numa noite em que o vento batia contra as persianas com uma violência incomum e frenética. Zainab sentou-se junto à lareira, seus ouvidos sensíveis captando um som que não pertencia à tempestade: o ruído rítmico de rodas de ferro e a respiração pesada e ofegante de cavalos sob esforço excessivo.
"Alguém está vindo", disse ela, sua voz cortando o crepitar da fogueira. Ela se levantou e sua mão instintivamente encontrou o cabo da pequena faca de prata que guardava para cortar ervas e para as sombras que ainda sentia à espreita nas margens de suas vidas.
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