Cosme e Damião: Os escravos gêmeos que enlouqueceram 17 feitores em um ano, 1761.

Cosmas e Damião: Os Escravos Gêmeos que Enlouqueceram 17 Capatazes em um Ano, 1761

O sol ainda não havia nascido quando a carroça rangeu ao percorrer a estrada de terra do engenho de açúcar São Jerônimo. Era março de 1761, e o ar estava impregnado com o aroma doce e enjoativo do melaço. Joaquim Pereira, superintendente há quinze anos, observava a chegada dos novos "investimentos" do Sr. Bernardino.

Dois jovens saíram da carroça. Gêmeos, altos e magros, com cicatrizes rituais no rosto que contavam histórias de uma África distante. O que mais perturbava eram seus olhos: negros como a noite, mas com um brilho que parecia penetrar as pessoas. Eles não falavam português; comunicavam-se apenas em uma língua musical e incompreensível.

"Cosmas e Damião", anunciou o traficante de escravos. "Eles vieram do Daomé. Fortes como touros, silenciosos como serpentes."

"Cosmas e Damião", anunciou o traficante de escravos. "Eles vieram do Daomé. Fortes como touros, silenciosos como serpentes." Joaquim cuspiu no chão com desprezo e ordenou que os levassem para os alojamentos dos escravos nos fundos do prédio. Mas os gêmeos se recusaram a ser separados. Permaneceram imóveis, lado a lado, até que ninguém mais tentou separá-los. Era como se fossem uma só alma em dois corpos.

Durante a primeira semana, trabalharam com precisão mecânica. Joaquim relaxou, pensando que eram apenas mais ajudantes. Mas, na segunda semana, as coisas tomaram um rumo estranho.

Joaquim acordou no meio da noite com o som de correntes sendo arrastadas. Ao sair, encontrou suas correntes penduradas no chão, formando um círculo perfeito. Na manhã seguinte, encontrou seu chicote favorito quebrado ao meio, com um corte limpo. Os gêmeos, separados do guarda, negaram tudo inocentemente, mas, pela primeira vez, falaram em português rudimentar, o que fez o guarda recuar.

As noites de Joaquim haviam se tornado um inferno. Às três da manhã, ele ouviu sua própria voz gritando ordens no pátio. Olhando pela janela, ele viu uma figura alta imitando seus gestos. "Sou eu, Joaquim. Vocês não me reconhecem?", disse a figura, com a mesma voz do guarda.

Duas semanas depois, Joaquim pediu demissão, alegando problemas de saúde na família. Mentira. Ele evitou o olhar dos dois homens. Ao sair, jurou ter ouvido duas risadas idênticas ecoando atrás dele.

O novo superintendente, João Batista, chegou com a reputação de homem severo. Veterano de quinze usinas de açúcar, ele ria de histórias de fantasmas. "Não se metam comigo", advertiu os gêmeos.

Mas logo os sussurros começaram. Vozes de origem desconhecida, primeiro em uma língua africana, depois em português, proferiam coisas arrepiantes: "João Batista vai morrer. Vocês mataram crianças. Vocês queimaram homens vivos." Eram segredos que ninguém conhecia, crimes cometidos em outros lugares.

Na terceira semana, João Batista começou a ouvir vozes em sua casa. Ele encontrou uma boneca feita de palha de milho em sua cama, chorando lágrimas de sangue. Viu o fantasma de Maria, uma escrava que ele havia matado, no canavial. Quando confrontou Damião, recebeu apenas respostas sarcásticas.

O fim de João Batista chegou numa noite em que viu Cosmas à sua porta, falando com a voz do bispo, confessando crimes e implorando perdão aos mortos. “Boa noite, Senhor João. Está dormindo bem?”, disse Cosmas, com a voz voltando ao normal. Na manhã seguinte, João Batista fugiu tremendo, invocando os demônios gêmeos.

Dois capatazes em dois meses. Furioso, o Sr. Bernardino transferiu os gêmeos para a fazenda Boa Esperança, de propriedade de seu cunhado, Antônio Ferreira. O capataz da fazenda, Sebastião Cardoso, era conhecido por espancar qualquer um que se rebelasse.

Sebastião trancou os gêmeos na “prisão dos escravos rebeldes”, em celas separadas por um muro de pedra. "Aqui vocês aprenderão disciplina", assegurou-lhes.

Mas os gêmeos não precisavam estar juntos para agir. Os escravos juravam tê-los ouvido conversando através das paredes em uma língua antiga. Sebastião começou a encontrar seus pertences em lugares inesperados: o chicote enterrado em forma de cruz invertida, as botas cobertas de terra do cemitério.

Em seu quarto, no segundo andar da grande casa, Sebastião encontrou símbolos desenhados com cinzas no chão, cercados pelas pegadas descalças dos gêmeos. Como haviam escapado de suas celas trancadas?

As vozes retornaram, revelando os crimes de Sebastião. Certa tarde, ele viu o fantasma de Benedito, um jovem que ele havia açoitado até a morte, ao lado de Cosme no moinho. Cosme negou ter visto qualquer coisa, com aquele sorriso fraco e aterrador.

Naquela noite, Sebastião foi até a senzala de pedra e ouviu os gêmeos cantando. Espiando lá dentro, ele os viu deitados, mas ouviu um sussurro em seu ouvido: "Sebastião Cardoso está prestes a morrer".

Uma semana depois, os gêmeos foram transferidos novamente. Três guardas foram presos.

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