Mas nem ela terminou a frase. Porque as provas não deixavam espaço para esse tipo de consolo.
Durante dias, Gabriel não conseguia parar de se lembrar de pequenos momentos que antes lhe pareceram insignificantes. O jeito como Arnaldo sempre mudava de assunto quando alguém mencionava Melissa. Seu hábito de trancar certas portas. As vezes em que, criança, Gabriel queria brincar no galpão e seu avô ficava desproporcionalmente irritado. Ele até se lembrou de algo que pensava ter imaginado por anos: uma noite, há muito tempo, ouvindo alguém chorar no quintal enquanto Arnaldo falava em voz baixa e urgente, como se estivesse acalmando um animal ferido.
Ela não contou para ninguém na época. Ela tinha quatro anos de idade.
Agora essa lembrança voltou como veneno.
O enterro de Melissa aconteceu dois meses depois, quando a promotoria finalmente liberou seus restos mortais. Lucía queria um caixão branco. Marco inicialmente se opôs, dizendo que era para meninas, não para uma jovem de quinze anos cuja vida lhe fora roubada. Mas, no fim, ao ver a irmã acariciando a madeira com os dedos trêmulos, ele se calou. Gabriel carregava uma fotografia de Melissa sorrindo à beira do rio, com os cabelos presos, vestindo uma blusa amarela que o sol fazia parecer quase dourada.
A igreja estava lotada.
Não por devoção. Por culpa.
Vizinhos, parentes, conhecidos que durante quatorze anos repetiram teorias convenientes: que ela fugiu, que tinha vergonha da gravidez, que foi embora com um caminhoneiro, que se cansou da família. Estavam todos lá agora, de cabeça baixa, trazendo flores como se flores pudessem fazer algum bem diante de tal verdade.
Gabriel não chorou durante a missa.
Mais tarde, no cemitério, quando todos começaram a se dispersar e ela viu a mãe sozinha em frente à sepultura recém-selada, Lucía chorou. Ela encostou a testa na lápide provisória e disse algo tão baixinho que ninguém mais conseguiu ouvi-la. Gabriel se aproximou e então a ouviu.
—Perdoe-me por deixá-la aqui com ele.
Essa frase o destruiu.
Porque esse era o verdadeiro veneno dos monstros familiares: eles não apenas destroem uma vida, como também infectam os sobreviventes com uma culpa que não lhes pertence.
As semanas seguintes foram estranhas. A casa de Arnaldo estava vazia, mas não silenciosa. A polícia entrava e saía constantemente. Encontraram mais cadernos, cartas não enviadas, recortes de jornal sobre “moças rebeldes”, sermões sublinhados, anotações onde ele falava de pureza, pecado e castigo. Não houve confissão completa, nunca houve. Arnaldo morreu três semanas antes de o colchão ser removido. Levou consigo a versão final de sua própria monstruosidade. Talvez acreditasse que o segredo permaneceria enterrado com ele. Talvez se sentisse seguro até o fim.
Ele não era.
Certa tarde, Gabriel voltou sozinho para a casa vazia. Não contou a ninguém. Subiu até o quarto principal. A marca do colchão ainda estava impressa na estrutura da cama. A porta do armário estava aberta. Um aroma quente de chuva recente entrava pela janela. Ele ficou parado no meio do quarto, olhando ao redor, e compreendeu algo que antes evitava pensar com clareza: por anos ele abraçara aquele homem. Chamara-o de Avô. Comera à sua mesa. Aceitara doces de sua mão.
E, no entanto, ela não sentiu vergonha. Ela sentiu raiva.
Uma raiva pura e nova, diferente do medo.
Ele abriu uma das gavetas onde costumavam guardar meias e lenços. Havia algumas coisas ali que não tinham utilidade para a investigação: um terço quebrado, um isqueiro, um relógio antigo sem pulseira. Gabriel pegou o terço entre os dedos e o examinou por um longo tempo. Depois, guardou-o de volta no lugar.
Ele não queria tirar nada de Arnaldo.
Nada.
Antes de ir embora, ela foi ao quintal uma última vez. O galpão ainda estava isolado. Ela olhou para a terra remexida. Imaginou Melissa aos quinze anos, ainda viva, revoltada, linda, querendo escapar de uma família sufocante, sem saber que o perigo não estava na rua, mas sim sentado à cabeceira da mesa.
“Nós te encontramos”, murmurou ele.
Foi muito pouco. Muito tarde. Insuficiente.
Mas era verdade.
Com o tempo, Lucía parou de perguntar o porquê. Marco parou de bater nas paredes. Gabriel parou de acordar suando frio toda vez que sonhava com margaridas bordadas. Nenhum dos três jamais pronunciou o nome de Arnaldo em voz alta novamente. Não havia necessidade. Ele se tornou uma sombra sem altar e sem perdão.
Melissa, por outro lado, começou a retornar de uma maneira diferente.
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