Expulsa de casa, a jovem encontrou um rancho deserto... Ela se refugiou lá e fez de tudo para sobreviver sozinha.

ANÚNCIO
PARTE 1

"Você já está velha demais para continuar comendo de graça."

As palavras atingiram como uma pedra antes mesmo do sol nascer. E com elas, o pouco que Celina conhecia de lar desapareceu.

Seu padrasto não gritou. Não havia necessidade. Algumas coisas quebravam mais com uma voz fria do que com violência.

Naquela manhã, aos 24 anos, Celina saiu de casa com um vestido gasto, uma mala que mal fechava e uma humilhação tão antiga quanto sua infância. Sua mãe havia morrido quando ela tinha nove anos. Daquele momento em diante, a casa deixou de ser um refúgio e se tornou trabalho.

Cozinhar.

Lavar.

Passar.

Costurar.

Silêncio.

Ela nunca foi à escola. Nunca usou um vestido novo. Nunca ouviu ninguém chamá-la pelo nome com carinho. Ela cresceu entre o fogão e a lavanderia, servindo na mesma casa onde era mal tolerada.

Quando Dalba apareceu, com sua risada alta e olhar gélido, Celina entendeu que o fim estava próximo. Mas ela não imaginava que seria assim: com a porta se fechando atrás dela antes mesmo de seu café esfriar.

Dalba nem sequer a insultou.

Ele ficou parado no corredor, braços cruzados, sorrindo em silêncio.

E às vezes o silêncio pode ser a forma mais cruel de desprezo.

Celina caminhava pela trilha de terra, sem saber para onde ia. Não tinha dinheiro. Ninguém para procurar. Nenhum plano. Tinha apenas três mudas de roupa, um pente, uma barra de sabão, sua certidão de nascimento e uma pequena imagem da Virgem Maria que pertencera à sua mãe.

Então ela ouviu um latido.

Pituca veio correndo atrás dela, levantando poeira, língua de fora, olhos brilhando de lealdade. Da porta, seu padrasto gritou para que ela levasse aquele animal inútil também, que ele não ia desperdiçar comida com mais ninguém.

Celina se abaixou, acariciou a cabeça do cachorro cor de mel e sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

Pelo menos alguém no mundo a havia escolhido.

Caminharam por horas sob um sol impiedoso. A cidade ficou para trás. Depois, as cercas antigas, as árvores tortas, os sons das pessoas também ficaram para trás. Apenas poeira, cansaço e aquela amarga vergonha de não poder responder, se alguém perguntasse, para onde estava indo.

Porque a verdade era simples e devastadora:

ela não estava indo a lugar nenhum.

Já era quase crepúsculo quando ela viu uma trilha estreita, meio escondida entre a vegetação alta. Pituca entrou primeiro. Celina hesitou por um instante, depois a seguiu.

Depois de vários minutos abrindo caminho entre galhos e silêncio, a trilha de repente se abriu.

E lá estava.

Uma casa de adobe com telhado de telha, inclinada pelo tempo, cercada por uma cerca quebrada e vegetação rasteira selvagem. Não havia fumaça. Nem vozes. Nenhum sinal de vida. Apenas abandono. A porta da frente estava entreaberta.

Lá dentro, o ar cheirava a umidade e ao tempo parado. Havia poeira, folhas secas, teias de aranha, dois cômodos vazios, uma cozinha com prateleiras despojadas e um fogão antigo que ainda parecia resistir.

Tudo estava esquecido.

Tudo parecia ter sido deixado à espera de algo.

Celina colocou a mala no chão e sentou-se no degrau da porta, observando o céu ficar alaranjado e roxo. Ela não sabia quem era o dono da fazenda. Não sabia se a expulsariam novamente no dia seguinte. Não sabia o que ia comer, nem como ia sobreviver.

Mas sabia de uma coisa com absoluta certeza:

ela não voltaria.

Naquela noite, dormiu no chão duro, usando a mala como travesseiro, com Pituca enroscada em sua barriga. Lá fora, os galhos rangiam. O vento assobiava pelas janelas quebradas. A fome a corroía por dentro.

E, no entanto, ao amanhecer, ela ainda estava lá. Ela arrastou seu corpo exausto para o quintal… e, em meio à vegetação rasteira, viu algo que lhe parou o coração: uma velha árvore carregada de mangas maduras e amarelas, abertas pelo sol, como se a própria terra lhe dissesse para ficar.

Celina ainda não sabia disso.

Mas o mais incrível não foi encontrar refúgio em uma casa abandonada.

Foi descobrir quem tentaria tomá-la dela.

PARTE 2

Os primeiros dias na fazenda não pareceram uma nova vida.

Pareceram um teste.

Celina aprendeu a sobreviver antes de aprender a viver. Comeu mangas que caíam da árvore como se fossem um banquete. Seguiu o murmúrio da água até encontrar um riacho cristalino escondido entre a vegetação. Passou horas lutando com duas pedras até acender uma faísca no velho fogão, e quando viu a primeira chama subir, gritou de alegria como se tivesse conquistado o mundo inteiro.

Porque, de certa forma, ela tinha.

Então veio todo o resto.

Fome.

O medo de dormir sozinha no meio da mata.

A dificuldade de limpar a primeira lebre que Pituca caçou para ela.

A paciência de lançar uma linha improvisada no riacho até finalmente fisgar um peixinho que ela guardou como um troféu.

E aos poucos, o que a princípio parecia ruína começou a se transformar em possibilidade.

Ela encontrou goiabas.

Uma trepadeira de maracujá.

Um pé de mamão esguio com frutos verdes.

Ervas daninhas crescendo selvagens entre a vegetação rasteira.

Terra escura sob o abandono.

Ela não via mais uma fazenda morta.

Ela viu um lugar que poderia ser...

Para ver as instruções de preparo completas, vá para a próxima página ou clique no botão Abrir (>) e não se esqueça de COMPARTILHAR com seus amigos no Facebook.