Minha voz estava fraca e rouca. "Você morreu no nosso casamento."
"Eu tive que fazer isso. Fiz por nós."
"Do que você está falando? Eu te enterrei."
O casal do outro lado do corredor olhou para nós.
Karl baixou a voz. "Por favor. Só escuta. Meus pais me deserdaram anos atrás porque eu me recusei a entrar para os negócios da família. Eu queria minha própria vida. Eles disseram que eu estava desperdiçando tudo."
Eu o encarei.
"Quando descobriram que eu ia me casar, me ofereceram uma chance de 'corrigir meu erro'."
"Que oferta?"
"Disseram que me devolveriam o acesso ao dinheiro da família se eu voltasse. Se eu voltasse com uma esposa."
Pisquei. "O que isso tem a ver com você fingir a sua morte no nosso casamento?"
Ele olhou ao redor do ônibus e depois para mim. "Eu concordei."
"O quê?"
"Eles transferiram o dinheiro alguns dias antes do casamento. Uma grande quantia. O suficiente para que nunca mais precisássemos nos preocupar. Eu transferi imediatamente."
Encarei-o. "E agora? Você voltou dos mortos para me dizer que estamos ricos?"
"Voltei para te levar. Para que pudéssemos desaparecer."
"Por que desapareceríamos?"
"Você não entende." Ele exalou bruscamente. "Eu menti. Nunca planejei voltar para meus pais ou deixá-los controlar nossas vidas."
Recostei-me na cadeira. "Foi por isso que você fingiu a sua morte? Para roubar meus pais?"
"É liberdade", disse ele, aproximando-se. "Você não entende? Se eu cumprisse minha promessa, eles controlariam tudo — nossas vidas, nosso futuro, nossos filhos. Assim, teríamos dinheiro sem limites."
Cubri a boca com a mão.
Ele continuou, agora quase ansiosamente. "Podemos ir para qualquer lugar. Vamos recomeçar. Vou te dar a vida que você merece."
Olhei para o rosto dele e não vi nenhuma culpa real. Nenhuma compreensão do que ele tinha feito comigo.
"Deixe-me planejar seu funeral", eu disse.
Karl estremeceu. "Eu sei que foi difícil."
"Difícil?", levantei a voz. "Eu vi quando te carregaram para fora enquanto eu ainda estava de vestido de noiva."
O homem sentado duas fileiras à nossa frente se virou e ficou olhando fixamente.
Karl baixou a voz novamente. "Me desculpe. Eu sabia que você entenderia quando eu explicasse. Eu fiz isso por nós... Você entende, não é?"
Aquilo me atingiu mais forte do que qualquer outra coisa.
"Não. Você fez isso pelo dinheiro, Karl."
"Não é justo." Ele se inclinou para mais perto, sentindo a irritação aumentar. "Você não tem ideia da oportunidade que isso representa. Eu não queria te sobrecarregar com essa decisão, querida."
“Me culpar? Não… você só não queria que eu dissesse não.”
Ele apertou a ponte do nariz. Observando-a tentar entender por que eu não aproveitaria a oportunidade, algo dentro de mim se acalmou.
Peguei minha bolsa, toquei no meu celular e liguei a tela. Não o tirei de lá — simplesmente deixei a bolsa aberta no meu colo, com o microfone virado para cima.
“Como você fez isso?”, perguntei. “Tudo. Os paramédicos, o médico…”
Ele hesitou. Então murmurou: “O Daniel ajudou. Os paramédicos eram atores. Pensaram que era para algum evento filmado. E o médico devia um favor a ele.”
Nesse momento, as pessoas ao nosso redor começaram a ouvir atentamente. Uma senhora idosa do outro lado do corredor se inclinou para a frente.
“Com licença”, disse ela. “Não quero ser intrometida, mas esse homem fingiu a própria morte no casamento?”
O rosto de Karl escureceu. “É um assunto particular.” “Deixou de ser privado quando eles começaram a confessar no transporte público”, disse ela.
O rapaz mais novo atrás de nós fez uma careta. “Tá bom, mas os pais dele parecem malucos.”
A mulher retrucou: “Ele também.”
O homem atrás de nós acrescentou: “Senhora, ele está tentando escapar de uma família rica e controladora. Isso não é nada.”
O ônibus estava lotado agora, como se a tensão pairasse no ar.
Karl olhou para mim com desespero e raiva. “Ignore-os. Escute. Acabou. Não tem volta, mas ainda podemos ter uma vida boa.”
Por um instante, imaginei: uma cidade nova, uma casa bonita, dinheiro, família, sem preocupações.
Então me lembrei de estar ao lado do caixão, tentando não desabar.
Sam.
Olhei para ele e senti a última faísca do meu amor se apagar.
O ônibus diminuiu a velocidade antes da próxima parada. Peguei minha bolsa e me levantei.
Karl também se levantou. "Você tomou a decisão certa. Vamos descer aqui, ir para o aeroporto e depois..."
"Não, Karl. Se você não vier comigo até a delegacia mais próxima, eu não vou a lugar nenhum com você."
"Você não faria isso... como poderia? Depois de tudo que eu fiz por você!"
Olhei para ele por um longo momento — para o homem que eu amava, o homem com quem me casei, o homem cuja morte quase me destruiu.
"Você fez isso por si mesmo. Esperava que eu concordasse, mas não vou. Gravei tudo e vou levar a gravação para a polícia."
A mulher sentada do outro lado
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