Ele escancarou a porta, entrou na cozinha e deixou o metal bater atrás de si, deixando Valeria sozinha na escuridão do beco. No instante em que ele desapareceu, os joelhos de Valeria fraquejaram. Ela desabou no asfalto imundo, agarrando o estômago, e irrompeu em lágrimas inconsoláveis, um choro silencioso e dilacerante, afogando-se em sua própria dor em meio ao lixo. Ela havia salvado Javier mais uma vez, mas lá dentro, Javier não caminhou em direção à saída.
Ele foi direto para sua mesa. Pegou o telefone e discou um número. Seus instintos soaram como um alarme ensurdecedor. A versão de Valeria era perfeita, perfeita demais para ser real. E ele iria descobrir a verdade, custasse o que custasse. Javier Garza voltou pelas portas giratórias da cozinha, deixando para trás o inferno de calor e panelas para se juntar ao ar gélido e perfumado de Letual. Seu rosto era uma máscara esculpida em granito. Ninguém na luxuosa sala de jantar ousava encará-lo diretamente, mas todos sentiam a vibração letal emanando de seu terno azul-marinho.
A poucos metros de distância, ao lado do posto de gasolina, Armando Vargas, o gerente geral, permanecia rígido como uma tábua, suando profusamente e enxugando a testa com um lenço de seda. Ele tremia. Sabia que havia cruzado uma linha que poderia lhe custar a carreira. Javier ignorou Armando como se fosse uma barata esmagada em mármore e caminhou com passos largos e determinados até a mesa central. Os três executivos do ramo imobiliário, que haviam permanecido imóveis por dez minutos, endireitaram-se imediatamente ao vê-lo chegar.
O advogado principal, um homem de cabelos grisalhos e terno cinza, esboçou um sorriso nervoso e empurrou o contrato, manchado de tinta preta, em direção ao centro da mesa de vidro. "Javier, que bom que você voltou", disse o advogado, pigarreando, fingindo que a cena de violência física e humilhação pública que acabara de presenciar jamais acontecera. “Suponho que tenha sido um mal-entendido com a equipe. Vamos continuar. Aqui está a caneta. Só precisamos da sua assinatura para finalizar a aquisição da Letual pelos 40 milhões acordados.”
Javier ficou de pé, de frente para a cadeira de carvalho. Não pegou a caneta Monblan de ouro maciço. Nem sequer olhou para o papel. Seus olhos escuros e turbulentos percorreram o teto ostentoso do restaurante, os lustres de cristal, as paredes de mogno e, por fim, fixaram-se na porta de serviço por onde Valeria havia fugido. Aquela imagem o sufocava. Sua ex-esposa, a mulher arrogante que exigia rosas de estufa todas as sextas-feiras, escondida no lixo de um beco, aterrorizada, protegendo a barriga de oito meses de gravidez.
Havia algo terrivelmente errado em toda aquela situação. “O negócio está cancelado”, disparou Javier. Sua voz era baixa, plana, cortando o ar como uma guilhotina. Os três homens à mesa arregalaram os olhos em choque. O advogado Canoso levantou-se de um salto, pálido. "O quê, Javier? Pelo amor de Deus, estamos negociando isso há três meses. O preço é uma pechincha. O mercado está no auge. Você não pode desistir agora por causa de uma discussão com uma garçonete. Vamos lhe dar um desconto adicional, o que acha?"
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