Horas antes do meu casamento, encontrei meu vestido em farrapos e ouvi minha sogra rindo atrás da porta; então entrei no cartório vestida de preto e transformei meu casamento no funeral da minha própria ingenuidade…

Mas as lágrimas não exigiram muito esforço.

Às vezes, a dor, quando é pura demais, deixa de se assemelhar à tristeza e se transforma numa cruel clareza.

Levantei-me. Abri a torneira. Lavei o rosto até remover toda a maquiagem que Leonor obrigara a cabeleireira a me aplicar: um blush apagado, um penteado cheio de cachos rígidos, uma versão estrangeira de mim mesma. Soltei o cabelo, passei os dedos por ele e o prendi num rabo de cavalo baixo e arrumado. Abri a gaveta onde guardava minha maquiagem do dia a dia e peguei o delineador preto e o batom vermelho que Leonor chamara de "vulgares". Apliquei-os com precisão quase cirúrgica.

Depois, fui até o closet, abri minha mala de lua de mel e peguei o vestido que comprara para um jantar em Oaxaca depois do casamento: preto, justo, mangas compridas, decote discreto, tecido liso e elegante. Vesti-o lentamente.

Quando saí do banheiro, Leonor e Verónica me olharam como se tivessem visto outra mulher entrar.

"Você vai usar isso?", perguntou Verónica, sem conseguir esconder o choque.

"Isso te incomoda?", respondi.

Leonor franziu os lábios.

"Ninguém se casa de preto."

"Não", eu disse, fixando o olhar nela. "Mas você pode enterrar um sonho."

Elas não responderam. Pela primeira vez desde que as conheceram, não conseguiam encontrar as palavras certas. Peguei meus brincos de prata antigos, um presente da minha avó, peguei minha bolsa e fui até a porta.

Meu celular tocou no elevador. Era o Mateo.

"Onde você está?", perguntou ele, agitado. "Todos já estão aqui."

"Estou a caminho", respondi com uma calma que eu mesma não entendia. "Não se preocupe, meu bem. Vou dar a eles algo que jamais esquecerão." A caminhada até o cartório foi uma procissão silenciosa. Leonor e Verónica insistiram em entrar no mesmo táxi, uma de cada lado, como se a presença delas pudesse de alguma forma conter o que eu estava prestes a fazer. Lá fora, a cidade brilhava com a garoa úmida. As barraquinhas de tamales fumegavam, as pessoas corriam com guarda-chuvas, micro-ônibus jogavam água nas esquinas e vendedores de flores se penduravam nos semáforos. Pensei, ironicamente, que até a cidade parecia saber que aquele não era um dia para vestidos brancos.

Lembrei-me do meu pai, Rafael, um engenheiro aposentado, se recuperando de uma cirurgia cardíaca realizada três meses antes. Lembrei-me da voz da minha mãe, Teresa, tentando me tranquilizar durante todas aquelas semanas.

"Não se deixe dominar pela dúvida, filha. Se você o ama, dê a ele o que lhe é devido. Mas nunca deixe ninguém lhe desrespeitar."

Eu só tinha ouvido a primeira parte do conselho dela.

Quando chegamos ao cartório, o local já estava lotado de convidados. Meus amigos, meus tios, os colegas de trabalho do Mateo, primos de ambos os lados, todos sorrindo, alheios ao que estavam prestes a presenciar um colapso. Assim que saí do táxi, o murmúrio foi imediato. Os sorrisos congelaram. Vi olhos se arregalarem, mãos cobrirem a boca, cabeças se inclinarem umas para as outras.

Uma noiva de preto.

Caminhei com as costas eretas, sentindo o perfume enjoativo de Leonor atrás de mim e a respiração nervosa de Verónica. Mateo me esperava no saguão. Terno cinza-escuro, gravata clara, cabelo impecável, rosto pálido.

"Sófia", disse ele, pegando meu braço. "O que aconteceu? Onde está seu vestido?"

Afastei-me delicadamente.

"Ela teve um pequeno acidente."

"Como assim, um acidente? Por que não me ligou?"

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