Parte 2:
Eu não gritei.
Eu não chorei.
Algo dentro de mim já havia se transformado em pedra.
"Continue." Ele respirou fundo.
"Ele tinha outra família. Há muitos anos. Mais de vinte. O nome dessa mulher é Clara. Descobri isso há três anos, revisando a papelada da empresa de suprimentos náuticos. Havia contas duplicadas, recibos de duas casas, apólices de seguro..." Fechei os olhos.
Todas aquelas viagens. Todas aquelas ausências que eu havia justificado para meus amigos. "É por causa do trabalho", eu dizia. Como fui tola.
"Ele queria ficar com ela", Rodrigo continuou entre lágrimas, "mas não queria o divórcio. Disse que você ficaria com metade de tudo. Então, planejou fingir a própria morte. Transferiu dinheiro para outra identidade. Trocou documentos. Havia um homem muito doente, sem família próxima... pagaram para usar o nome dele no hospital. O corpo estava irreconhecível, e foi por isso que o caixão fechou." Olhei para ele lentamente. “E você ajudou?” Rodrigo estava completamente devastado.
“Sim. Pensei que poderia cuidar de você depois. Te dar dinheiro. Que seria menos doloroso do que saber a verdade.”
“Menos doloroso?” Repeti com uma risada seca. “Você me deixou chorar por um estranho. Você me deixou beijar uma caixa vazia pensando que o homem com quem passei a minha vida estava lá dentro.”
“Mãe…”
“Me leve para casa.” Durante três dias, não atendi ligações. Nem a de Rodrigo. Nem a de ninguém. Sentei-me em silêncio e, pela primeira vez, não chorei. Pensei.
Então, agi.
Procurei um detetive particular no centro da cidade. Dei a ele nomes, datas, fotos, um endereço. Depois, contratei um advogado especializado em fraudes e crimes contra o patrimônio. Se eles iam destruir a minha vida com uma mentira, eu ia responder com toda a verdade.
Em uma semana, tínhamos tudo.
Transferências de quase dois milhões de pesos antes do suposto acidente.
Relatórios falsos. Contas de luz e água de duas casas, abrangendo mais de vinte anos.
Assinaturas falsificadas.
E o pior de tudo: ligações constantes entre meu marido e Rodrigo antes e depois do funeral.
Não foi uma traição impulsiva.
Foi uma conspiração.
Minha advogada, Verónica Téllez, olhou-me diretamente nos olhos depois de analisar o processo.
"Sra. Mariela, isto é fraude, roubo de identidade, falsificação e peculato. Mas preciso de uma confissão do seu filho ou do seu marido para encerrar o caso."
Assenti com a cabeça.
Eu já sabia como conseguir.
Liguei para Rodrigo e suavizei a voz.
"Estou cansada de lutar, filho. Só quero entender para poder seguir em frente com a minha vida."
Ele concordou em almoçar comigo no dia seguinte.
Eu carregava um gravador na minha bolsa.
Deixei-o falar.
Perguntei-lhe quando o plano começou. Como movimentaram o dinheiro. Quem assinou o quê. Qual era o nome que o pai dele usava? Onde estavam os documentos originais? Ele falava como se eu ainda fosse a mãe que perdoava tudo.
Cada palavra era uma porta se fechando atrás dele.
Naquela mesma tarde, Verónica registrou a queixa. O Ministério Público agiu mais rápido do que eu imaginava. Bloquearam as contas. Invalidaram a identidade falsa. Prepararam os mandados judiciais.
Rodrigo foi preso ao amanhecer.
Quando fui notificada, me servi de um café e o bebi em silêncio.
Não me senti vitoriosa.
Senti-me grave.
Então fui até a estufa.
Toquei a campainha.
Clara atendeu. Olhou para mim com uma polidez cautelosa.
"Estou procurando o Javier", eu disse. "É urgente." Ela me deixou entrar no quintal. Ele estava parado perto de uma mesa com ferramentas, consertando um vaso de flores quebrado. Quando se virou e me viu, seu rosto empalideceu completamente.
"Mariela..." Peguei um envelope e entreguei a ela.
"São documentos legais. Leia-os." Suas mãos tremiam enquanto folheava as páginas. Processos judiciais. Ordens de restrição. Notificações do Ministério Público. Sua respiração ficou ofegante.
"O que você fez?", murmurou ela.
"Eu não fiz nada, Ernesto. Apenas disse a verdade." Clara saiu para o quintal ao ouvir nossas vozes.
"O que está acontecendo?" Olhei para ele e mal consegui elevar a voz.
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