Ela era a filha que toda mãe sonha em ter. Desde muito pequena, sabia que queria ser enfermeira. Dizia-me que queria ajudar as pessoas, cuidar dos doentes e aliviar a dor daqueles que sofriam. Eu a observava brincar com suas bonecas, colocando curativos nelas, dando-lhes remédios imaginários, e me enchia de orgulho. Minha filhinha ia ser alguém. Minha filhinha ia quebrar o ciclo de pobreza que marcava nossa família há gerações.
Em 2013, quando completou 18 anos, ingressou na faculdade de enfermagem da Universidade de Guadalajara. Passou no vestibular com uma das maiores notas da turma. Quando me contou a notícia, desabei em lágrimas como Maria Madalena no meio da cozinha. Minha filha, filha de uma mulher que mal havia terminado o ensino fundamental, ia ser uma profissional.
Dei uma festa em casa para comemorar. Convidei toda a família, os vizinhos, seus amigos do ensino fundamental. Abati um porco. Contratei uma banda de mariachis. Comprei um bolo de três andares com o nome dela escrito em glacê rosa. Foi o dia mais feliz da minha vida. Vê-la ali, rodeada de pessoas que a amavam, naquele vestido branco que eu comprara especialmente para a ocasião, com aquele sorriso que só ela sabia dar.
Se eu soubesse o que estava por vir, teria parado o tempo naquele instante. Teria-a abraçado e nunca mais a soltado. Lupita não sabia nada sobre o meu verdadeiro trabalho. Para ela, eu era uma faxineira que trabalhava para famílias ricas. Nunca menti diretamente para ela, apenas omitia as partes desagradáveis.
Quando ela me perguntava por que sempre me buscavam em vans com vidros escuros, eu dizia que os patrões eram muito reservados, que gostavam de manter um perfil discreto. Quando ela me perguntava por que às vezes eu chegava tão tarde, eu dizia que as casas eram muito grandes e que havia muito trabalho. Ela acreditava em mim porque queria acreditar, porque não conseguia imaginar que sua mãe, a mulher que a levava à missa e rezava o terço por ela antes de dormir, trabalhava para assassinos. Mas neste mundo, segredos não duram para sempre, e monstros sempre acabam encontrando os inocentes. O problema começou em março de 2014. Um dos comandantes do CJNG, um cara que todos chamavam de "El Chivo" (O Bode), chegou à minha casa em Tlajomulco enquanto eu limpava a cozinha. El Chivo era um homem de uns 35 anos, alto, musculoso, com um rosto ameaçador e uma cicatriz que atravessava seu pescoço de um lado ao outro.
Dizem que um rival o fez quando ele tentou cortar sua garganta, mas falhou. Dizem que El Chivo o encontrou depois e o manteve vivo por três dias enquanto o esfolava pedaço por pedaço. Ele era um dos comandantes de praça mais violentos do CJNG. Controlava a região de Uruapan, em Michoacán, onde se produzia a maior parte dos abacates do país.
Ele extorquia dinheiro dos produtores, cobrava taxas dos caminhoneiros e matava qualquer um que se recusasse a pagar. Dizem que ele executou mais de 50 pessoas com as próprias mãos. Dizem que ele gostava de torturar, que se deleitava com o sofrimento alheio, que às vezes gravava vídeos de suas vítimas implorando por misericórdia e os assistia depois para seu próprio divertimento.
Ele era o tipo de homem que todos na organização temiam. Até os outros comandantes o temiam. Quando El Chivo chegava a uma casa, a atmosfera mudava. Os pistoleiros baixavam o olhar, falavam em voz baixa, tentavam não chamar sua atenção. Naquele dia de março, El Chivo estava sentado na cozinha enquanto eu preparava chilaquiles para os rapazes.
Ele me observava enquanto eu cozinhava, sem dizer nada, apenas me encarando com aqueles olhos de víbora. Tentei ignorá-lo, concentrar-me no que estava fazendo, mas sentia seu olhar queimando minhas costas. De repente, ele falou comigo. “Dona Lupe, a senhora tem família?” Eu disse que sim, que tinha três filhos adultos.
Tentei manter a voz calma, para não demonstrar nervosismo, e perguntei se ele tinha alguma foto deles. Disse que sim, que sempre carregava fotos na carteira. Naquela época, celulares com câmeras como os de hoje não existiam, então eu carregava fotos impressas dos meus filhos. "Mostre-as para mim", ordenou ele. Fui pegar minha bolsa e tirei a carteira.
Havia três fotos. Uma de Aurelio Júnior no trabalho, na loja de autopeças; uma de Fernando na formatura do ensino médio; e uma de Lupita com o uniforme de enfermeira, tirada poucas semanas antes. Era uma foto linda. Lupita sorria para a câmera com aquele sorriso característico dela, o cabelo preso em um coque, o jaleco branco impecável.
O homem olhou para as fotos uma a uma. Quando chegou à de Lupita, parou. Observou-a por alguns segundos, aproximando-a do rosto, estudando cada detalhe. "Esta é a sua filha", disse ele. Eu disse que sim, com a voz cheia de orgulho. Eu disse a ele que ela estava estudando enfermagem, que seria uma profissional, que era a luz da minha vida.
O bode sorriu de um jeito que me arrepiou até os ossos, um sorriso que não chegava aos olhos, o sorriso de um predador que encontrou sua presa. "Como ela é linda!", disse ele. "Parece uma estrela de TV. Ela tem namorado?" Eu disse que não, que estava muito ocupada com a faculdade.
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